Estava eu lavando o rosto com a água absolutamente congelante da minha pia, e, ardendo de ódia por dentro, me peguntei:
“Meu Deus, o que foi que eu fiz para merecer tamanho castigo?”
Parei. Pensei. Refleti. Lembrei de toda a minha vida, até mesmo de outras vidas, refiz todos os meus passos e nada. Nada. Eu não tinha feito nada para merecer uma torneira de água quente que não funcionasse.
Então resolvi abrir a torneira de água quente. Adivinhem? Saiu. Água. Quente.
Demorou apenas um ano e quatro dias para eu descobrir isso.
O Diego pergunta:
Srta. especialista, quais são as cores indicadas para dar sensação de um espaço maior em um espaço muito pequeno?
Embora hoje eu more nesse luxo de penthouse digna do meu talento e ego, acredite Diego, eu já morei num pequeno studio (a.k.a. KITINETE) de 40m2, então eu sou mais que qualificada para responder à sua pergunta.
Diego e demais leitores que moram em apartamentos, hum, digamos assim de uma forma politicamente correta, spacially challenged, me respondam:
Alguma vez vocês já entraram num banheirinho de botequim bem apertadinho, olharam para as paredes amarelo-bebê e pensaram com seus botões: “nossa, mas que banheiro espaçoso!”?
Eu imaginei.
Pois então. Não obstante o que os demais arquitetos, decoradores e profissionais do séquisso engajados no mundo da moda-do-seu-lar pensem e digam, acreditem em mim: não existe algo tal qual dar sensação de um espaço maior em um espaço muito pequeno.
Qualquer pessoa com um QI de mais de 32 - o que exclui automaticamente alguns leitores desse blog que estão preocupados com um mundo estranho e uma raça anti-humana -, ao adentrar um espaço muito pequeno, SABE que está num espaço muito pequeno.
Não adianta fazer o truque das paredes claras, de espelhos pra todo lado (pelamor!) e outras artimanhas igualmente traiçoeiras objetivando iludir as suas visitas. Acredite: elas olham a distância entre a porta e a janela e intuitivamente calculam que encostam nas duas se abrirem os braços.
E sendo assim, já que está tudo perdido, que tal pintar a sua casa de uma cor que você realmente goste, em vez de uma que seja blé e meramente crie a ilusão, para VOCÊ, de que está criando a ilusão para os outros de que você mora num grande e fino loft duplex?
Como não conheço o seu apartamento (ainda, pois sempre há a possibilidade de você corrigir essa grave falha de caráter sua), e como não sei qual é o seu gosto, sugiro dar uma olhada nos sites que indiquei no outro post e ver os ambientes que eles publicam (posso dar um pitaco mais abusado se você me mandar uma foto da sua casa). Acho que se eu fosse menino, como você, laranja seria uma cor legal de se viver num apartamento pequeno. Ou um verde bandeira.
Só pufavô: nada de bege e tons pastéis. E nada de espelhos.
Quando tinha 17 anos, fiz um curso de pintura artística com um inglês lindo, chamado Mike whatever, e aprendi a pintar paredes, fazer texturas, pátinas, enfim, todo um universo de técnicas para dar um toque brega naquele seu ambiente sem graça.
Pintei toda a escola de música onde eu cantava, as portas da casa de dois amigos, o hall do apartamento dos meus avós, mas nunca pintei nada para mim. Aos 22, quando comprei meu primeiro apartamento (e falando assim dá a impressão de que eu hoje tenho um verdadeiro império de imóveis talequal uma velhinha de 87 anos moradora do bairro Peixoto, mas nem), pintei ele todo de branco.
E depois do meu divórcio, aos 25, a partir do que eu passei a me mudar a cada ano, morei num verdadeiro festival de apartamentos brancos e sem graça. Culminhando no meu maravilhoso apartamento atual. Branco.
Via salas e quartos mega coloridos e alegres em alguns sites que leio e pensava…e se?
Até que esse fim de semana resolvi dar um basta nessa vida limpinha e asséptica, virei para o Paulo e disse: vamos ao Leroy Merlin (mentira, fomos a outra loja, mas estou até agora culpada de ter cometido este ato de traição contra essa loja que já me deu tantas alegrias na vida - e também algumas consequências funestas nas minhas finanças).
Chegando lá, abri a cartelinha de cores e, enquanto o Paulo - já robotizado pela nossa decoração sem graça - folheava os tons de bege, mostrei para ele um azul bem cheguei e disse: é esse.
Um segundo de espanto e logo em seguida o Paulo já estava com um sorrisinho maroto, mandando a atendente preparar a cor, porque o Paulo é assim: fazer merda é com ele mesmo.
Agora, amiguinhos, na esperança de que todos vocês vão terminar de ler esse texto e refletir sobre suas vidinhas sem cor e resolver fazer estripulias como Los Paulos, descrevo um passo-a-passo rápido de como pintar uma parede sem muitos percalços:
Primeiro, compre a tinta da cor desejada. Ouse, leitorinho, seja audacioso. Uma latinha de tinta custa DOZE reais. Isso mesmo, DOZE dinheirinhos que mal dá pra tomar um chopps e dois pastel. Escolha aquela cor que você sempre gostou, mas nunca teve coragem porque “mas-e-se-ficar-uma-bosta”?, porque, se ficar uma bosta, você gasta outros DOZE reais e pinta tudo de novo.
Por Deus, e, mais importante, por MIM, não escolha um bege: vá de vermelho, azul turqueza, verde menta, laranja, lilás. Dica para não errar: ao se sentir tentado por uma cor, pense se ela está no arco-íris (aproximadamente). Se não, fuja.
Compre também fita crepe, um kit de pintura (vem o rolo, a caixinha de plástico para o rolo, etc.) um rolinho menor (3cm) e um pincel menor para fazer os cantinhos (tá sentindo a profissidade?)
Cole a fita crepe ao redor da parede que você vai pintar (sim, você vai!). Não se esqueça do batente das portas e, especialmente, do interruptor de luz (a não ser, é claro, que você não se importe de ter um novo interruptor de luz bem colorido).

Notem as minhas unhas vermelhas, leitorinhas (é Volúpia, da Risqué, podem copiar): não se esqueçam de botar luvas de plástico quando começarem a brincar com a tinta, viu? A tinta é lavável, mas é super difícil e chato de tirar do esmalte. Aprendi the hard way.
Mas calma, antes de começar a sujeirada ainda tem outra precaução: forrar o chão com jornais:

Notem que os jornais devem ser devidamente colados ao chão com a fita crepe. E aproveitem para ver como é o kitzinho de pintura, se vocês nunca viram um na vida (ai, vocês me matam de vergonha!).
Agora, a sujeirada:

Enquanto um amiguinho* passa o rolo maior, o outro passa o rolinho pequeno (e o pincel, onde necessário) nos acabamentos:

Nessa foto vocês podem também ver minhas luvas. Vocês podem ver também que a primeira mão de tinta fica toda cagada. Palma palma, não priemos cânico: tudo vai melhorar na segunda mão (de 3 a 4 horas depois). It’s magic!

Viram só? Com 50 dinheiros e umas horinhas do seu dia, você pode mudar completamente o astral da sua casa, ser ousado, ter mais cor e alegria na sua vida. Eu recomeindo.
* se você não tem um amiguinho para ajudar na pintura, dá déizão pro seu porteiro camarada que aposto que ele topa. Se tudo der errado, ligue lá em casa que o Paulo vai correndo, porque, como já sabemos, fazer merda é com ele mesmo.
* se você for cabeça fraca e se influenciar por esse texto a pintar a sua parede, por favor, me mande uma foto que eu publico! :)
* vamos lá, seus covardões! Isso é um desafio!
Diante da minha reclamação, a Triunfo rapidamente entrou em contato por email pedindo meu telefone. Respondi, claro, e igualmente rápido recebi um recado no meu celular me pedindo que ligasse no número 0800 da empresa.
Ligar para um 0800, passar por todas as opções, atendentes gerundistas e etcétera…pensei duas vezes, mas lembrei de todos os leitorinhos desse blog que eu não podia deixar na mão, em especial minha amiga de fé e irmã camarada Mari F.. Liguei, pois.
Agendaram a retirada do produto para dia 10/06, horário comercial. Obviamente, o dia se passou e vocês vieram retirar bolachas murchas no meu escritório? Nem eles.
Uma semana se passou e nada, nenhum email, telefonema, explicação ou remarcação. Então ontem mandei um singelo email, informando do lapso temporal (sou phyna, bein!) e informando que estaria descartando o produto. Por fim, agradeci por me demonstrarem que a empresa caga e anda para a qualidade do que vende.
Cinco minutos depois, toca meu celular. A atendente, num cinismo machadiano, me diz que há uma semana estão tentando retirar o produto comigo, sem sucesso.
“Impossível, querida. Dei meu endereço comercial, onde trabalham mais de 200 pessoas.”
E outra, a nega liga no meu CELULAR e diz que está tentando e não conseguindo fazer xis há uma semana. E por que raios ela não ligou então no meu celular antes e disse que estava com problema para [insira aqui uma desculpa esfarrapada qualquer, tipo “encontrar o prédio”]?
Agendamos para hoje. Antes das 9h, a funça chega aqui para retirar o produto. Estou em casa, óbviamente, mas havia deixado o pacote separado sobre a mesa e mando minha secretária entregar.
E nesse momento a palhaçada da empresa se multiplica enlouquecidamente como uma célula cangerígena, e a funça se recusa a dar ou assinar qualquer recibo comprovando que entreguei o produto.
Em contra-partida, ela quer que a minha secretária assine em meu nome um documento xis dela, cujo teor eu desconheço. E a palhaçada fica tão grande que explode em mil pedacinhos no universo: ela não pode deixar a secretária tirar uma cópia do documento que vai assinar.
Peço para falar ao telefone com a nega. Olá querida, é isso mesmo? Você quer que eu assine um documento por procuração sem saber do que se trata e sem ficar com uma cópia? HE-LLOW.
Aviso para a secretária não assinar nada e, se a funça não quiser retirar o pacote, jogar no lixo e fôdassy.
Algum tempo depois, chego no escritório e encontro sobre a minha mesa o singelo ressarcimento deixado pela Triunfo: um pacote do mesmo biscoito. Abro, provo: está uma merda. Queimado e com um sabor horrendo.
Enquanto eles fazem a análise de qualidade deles, eu emito o meu laudo pessoal irrevogável e inapelável: Nevah more.
Tudo começou quando comprei as bolachas pela primeira vez e fiquei em estado de êxtase (sim, leitores, existem pessoas que ficam em estado de êxtase por qualquer merreca).
Gastei uma longa conversa com a Grace, inclusive, tecendo comentários sobre a deliciosidade dessa iguaria que rapidamente havia se tornado tão essencial na minha alimentação. E que, naturalmente, precisava se tornar essencial também na alimentação de Grace.
Como Grace mora nos confins do mundo, onde os únicos biscoitos disponíveis são creme cráque e um outro tão sem graça quanto, anotei o endereço da pessoa e me ofereci para lhe mandar alguns pacotes.
Voltei ao mercado (marbarato, marbarato, Extra!) e comprei dúzias de pacotes, para mim, para Grace e para toda a Humanidade. Sim, eu estava decidida a impôr convencer a todos que tinha descoberto o biscoito mais gostoso de todos os tempos.
Eis que. Cá estou eu, no sirviço, quando abro um pacotinho de Triunfo 3 Cereais. Minhas papilas gustativas já entrando em clima de festinha, meninos prum lado, meninas pro outro, esperando serem chamadas pra dançar. Até que dou a primeira mordida e…
…percebo que estou comendo um pedaço de chinelo. Duro. Insosso. Sem sabor. Queimado.
Não é possível, penso. E mordo de novo. Outro pedaço de chinelo, mesmo sabor (ou ausência de). Olho para o pacote (Putz-que-burra, só posso ter comprado errado!), mas é o mesmo biscoito delicioso do outro dia. Olho a validade (Só pode estar vencido! Deve ser do tempo dos Astecas…), mas, aparentemente, o biscoito é comível até novembro de 2008. Como já está intragável hoje, imagine daqui a alguns meses.
Me revolto. Ma me revolto muito. (Notem que eu já passei de Denial para Anger). Barganho e como só mais um pra ver no que dá. Iécou.
Finalmente, aceito que tudo não passou de um sonho, uma fantasia, a promessa de um biscoito perfeito que podia me acompanhar para todos os lugares, aprontando mil e uma aventuras comigo nas tardes de domingo. Mais ou menos como era o goiabinha na minha infância. Ou o Trakinas recheado de morango na adolescência. Ou o Cheetos Flamable em Nova York (aaaah, Cheetos Flamable, um dia precisamos dedicar um post todinho em sua homenagem…).
Mas não me resigno. E como uma pessoa revoltada e ao mesmo tempo entediada é capaz de coisas que até Deus duvida, entro no site da Triunfo, vejo o endereço eletrônico do SAC e gasto a próxima meia hora (o que significa, aliás, a perda de cerca de muitas doletas) escrevendo um longo email para a empresa. Que, por sinal, eu SEI que vai ser respondido por um analfabeto funcional em gerundismos variados que se encerrarão com um “sua opinião é muito importante para nós”.
Por que, então, vocês se perguntam, eu me dei ao trabalho? Porque eu, leitorinhos, estou tentando fazer desse mundo um lugar melhor pra vocês. Para que vocês possam comprar bolachinhas de qualidade.
Não precisam agradecer.
Temos duas caixas preferidas no mercado perto de casa. Uma é semi-albina, cabelinho ruivo, ri das nossas piadinhas de boca-de-caixa e tem dedos ágeis que passam as compras rapidinho.
A outra é uma tiazinha que não sabe o preço de nada, não sabe o código de nada, não sabe o que está fazendo ali e para tudo ela precisa chamar a mocinha da caixa ao lado:
“Fia! Ôoooo fia! Ucê sabe o có dissaqui?”
E produto sim, produto não, ouvimos a frase na voz de taquara rachada da lesminha. Ficamos tentando adivinhar quando lesminha vai pedir socorro novamente. Nos divertimos com a cara de desespero, de “ai meu padinho pádi ciço quanto custa isso?” da lesminha. E a cara de “ai meus caralhos que saco essa tiazinha, larga d’eu!” da caixa ao lado.
Apesar de ela ter bem uns 127 anos, no crachá dela diz: “Treinamento”. Ma é craro. E também é óbvio que sempre pegamos ela quando estamos com o carrinho beeem cheio, com compras para 2 anos.
Certa vez entramos na fila da lesminha - que obviamente não anda - e vimos a cliente da frente puxar do bolso um folheto de outro mercado, dizendo: “no carrefú isso tá marbarato!”. Porque paresque se levar o panfleto do carrefú o nosso mercado cobre a diferença.
“Fia! Ôooo fia!”
Ouvimos, desejamos boa sorte silenciosamente e mudamos de fila, nos divertindo porque aquela cliente logo logo descobriria que desafiar a lesminha com uma tarefa impussívi não valeria a pourra dos cinco centavos de economia.
E é assim que o mundo é, leitorinhos: onde tem uma albina super ágil sempre tem uma lesminha “em treinamento”, mantendo o equilíbrio do universo, numa manifestação concreta de yin e yang, das forças do destino, uaréver.
Eis que há algumas semanas o Paulo traduziu um livro de uma dessas autoras de literatura de cabaré, desses que a gente lê quando tem 13 anos de idade e acha super divertido que tem membros entumescidos e botões de rosa.
Eu já estava cansada de receber telefonemas no meio da tarde com perguntas do tipo: “oi, você sabe outro sinônimo pra gozar?”
Mas finalmente o trabalho acabou e logo logo viriam os respectivos dinheiros.
E o que você faz com muitos dinheiros que ganha traduzindo coisas como coxas viris e torso nu? Ora ora, você decide presentear a sua amada no aniversário de casamento com uma noite maravilhosa num hotel absurdamente caro, com direito a massagens a dois, pedilúvio, banho de ofurô, menu confiança e frescalhagens do gênero. É o perfeito ciclo kármico econômico: dinheiro de sexo financiando…olha, amor, que tv de plasma foda!
Aí o que Murphy faz? Faz a pourra da editora não pagar os dinheiros no dia certo. E o hotel está reservado. E custa dinheiros, tipo muitos. E eles têm nosso cartão de crédito. E nós vamos fazer massagens e voltar pelados de lá.
Agora é contigo, Santo Ivo!